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A estrutura da corporação responsável por fiscalizar as rodovias federais no Rio Grande do Sul dá mostras de esgotamento.
Com 5,4 mil quilômetros de asfalto sob sua responsabilidade, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) enfrenta dificuldades para prevenir crimes, fiscalizar ativamente as estradas e até manter abertos todos os 42 postos espalhados pelo Estado. Atualmente, a atuação de boa parte das unidades da PRF se limita ao socorro de acidentes e a fiscalizações eventuais realizadas diante dos postos – e, muitas vezes, sequer há condições de se fazer as duas coisas simultaneamente. Entre as principais razões apontadas para isso estão o perfil operacional, mais voltado para a reação do que para a prevenção, e uma crônica falta de pessoal.
Empossado na sexta-feira como presidente do Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais do Estado, Francisco Dalla Valle Von Kossel (veja entrevista na página ao lado) admite que os agentes precisam assumir uma postura mais ostensiva:
– Acabamos agindo reativamente.
A falta de ações preventivas, como a realização de barreiras de fiscalização em pontos variados das rodovias, é sentida por usuários frequentes da malha viária. O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Rio Grande do Sul (Setcergs), José Carlos Silvano, ressente-se de uma presença mais constante dos agentes:
– A PRF acaba agindo mais na correção de erros, como socorrer acidentes – comenta.
A incumbência original da PRF, criada em 1928, se resumia à fiscalização de trânsito. Somente mais de meio século depois, quando entrou em vigor a Constituição de 1988, foi integrada ao Sistema Nacional de Segurança Pública e recebeu a missão de combater toda forma de ilegalidade nos 61 mil quilômetros da malha viária federal. Enquanto as tarefas e a frota de veículos crescem, porém, o efetivo está estagnado há mais de uma década.
Os 735 agentes em serviço formam um contingente menor do que o de 1995, com 774 policiais. Havia um policial para 2,9 mil carros em meados dos anos 90, enquanto hoje há um para cada 6 mil. A situação é ainda mais complicada porque o contingente não trabalha todo ao mesmo tempo. Para manter o serviço 24 horas por dia, precisa se dividir em quatro escalas de trabalho.
A dificuldade de operação é maior no Interior, já que a maior parte do efetivo se concentra na Região Metropolitana. Para atender aos padrões considerados ideais pela organização, seriam necessários hoje 1,5 mil policiais rodoviários no Rio Grande do Sul. Chefe da 11ª Delegacia da PRF, com sede em Santana do Livramento, o inspetor Valmir Souza afirma que se esforça para manter um mínimo de dois agentes em cada uma das quatro bases de operação sob sua responsabilidade. Mas reconhece que a atuação está longe do ideal.
– A falta de pessoal reduz as ações, obriga a atuar apenas nos lugares com mais ocorrências e a realizar fiscalizações mais esparsas – afirma.
Um concurso público nacional, que garantiria 80 vagas para o Estado com vencimentos iniciais de R$ 5,7 mil, está temporariamente suspenso por suspeita de irregularidades envolvendo a empresa organizadora. Mesmo quando for realizado, ainda estará longe de suprir as carências atuais
Posto fechado por falta de policiais
Quem passa pelo km 144 da rodovia Porto Alegre-Cachoeira do Sul (BR-290), em Eldorado do Sul, depara com uma casa vazia ao lado de uma garagem, uma antena de comunicação e três mastros de metal. Ali funcionava um posto da Polícia Rodoviária Federal, fechado no ano passado devido à falta de policiais para vigiarem a estrada.
Outros fechamentos podem ocorrer nos próximos meses, devido a um estudo em andamento sobre a localização das unidades em todo o Estado.
Na região chamada Parque Eldorado, o posto abandonado fica a pouco mais de 30 quilômetros da unidade da PRF mais próxima. Como consequência dessa relativa proximidade, o ponto de fiscalização acabou sacrificado. Os poucos homens que prestavam serviço no local foram transferidos para reforçar outras áreas igualmente comprometidas pelas dificuldades de pessoal.
A comunidade dos arredores, porém, lamenta a partida da PRF da região. Agora, não há unidade da polícia em um trecho de pouco mais de cem quilômetros da BR-290 a partir de Eldorado do Sul até Pantano Grande. O comércio chegou a mudar os horários de funcionamento devido à insegurança. Um restaurante que funcionava diariamente até perto da meia-noite, por exemplo, agora fecha as portas logo depois de escurecer durante a maior parte da semana.
– Nos dava uma sensação maior de segurança. Desde o fechamento, vários estabelecimentos aqui por perto já foram assaltados – conta um dos responsáveis pelo local, Dilvam Iaroceski, 27 anos.
Ele também revela que são comuns os casos de motoristas que abusam da velocidade no trecho sem fiscalização, onde a BR-290 conta com uma pista simples.
– Tem carro que passa aqui e a gente não consegue nem ver qual é o modelo – reclama.
O superintendente da PRF no Estado, José Altair Gomes Benites, admite que a escassez de policiais estimulou a desativação do posto. Benites revela, ainda, que há um estudo em andamento para readequar a distribuição das unidades da corporação na malha viária federal. A intenção é que exista uma distância média de cem quilômetros entre duas bases policiais. Os postos distantes menos do que isso uns dos outros podem ser desativados ou deslocados.
– Esperamos ter isso concluído em no máximo seis meses – garante o superintendente
Zero Hora
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